Sobre Voltar para Casa
Cada pessoa tem o seu lar
Olá, aqui é a Surya! Começo este ano feliz e muito animada ao dizer: feliz 2026!
Estou feliz, em especial, por estar em casa. Quando digo “casa”, não consigo deixar de pensar na distinção que existe no inglês entre “home” e “house”; ambas podem ser literalmente traduzidas como “casa”, mas “home” tem o toque especial de significar, também, “lar”.
E quando falo em “lar”, consigo ouvir a voz aguda e infantil de Harry Potter dizendo “[…] mas Hogwarts é meu lar"!”.
Para algumas pessoas, voltar para o Brasil é voltar para casa, para o lar primordial, onde a família e as memórias estão.
Para mim, ter voltado para a Suécia depois de mais de um mês no Brasil foi como ter me mudado para cá pela primeira vez. Uau.
E, sim, eu posso dizer: a Suécia é meu lar.
Com frequência penso em como os suecos podem se sentir ao me ouvirem dizer isso. Por mais que eu me disfarce um pouquinho entre os nórdicos, ainda sou brasileira e, quando falamos em raízes legítimas, nunca serei uma nativa.
Mas acredito que é exatamente isso que faz eu amar tanto a Suécia: o meu background, o meu histórico, as minhas vivências no Brasil. São essas lembranças e a forma como fui criada, como me relacionei com a brasilidade e com as pessoas, que fazem com que eu tenha um prato cheio para ser degustado do outro lado do oceano.
O que eu quero dizer é que o contraste tem um grande papel em como nos relacionamos com alguns lugares. É pela Suécia ser muito diferente do Brasil que eu gosto tanto dela.
Não me entenda mal, eu gosto do Brasil. Sou grata por ter nascido lá, por ter sido criada lá. Afinal, gosto da pessoa que sou hoje e só sou esta pessoa por ser brasileira.
Estar em paz com as suas raízes pode ser um privilégio. E, quando estamos em paz, estamos livres. A partir dessa liberdade, pude olhar para o mundo e “escolher” o meu lugar nele.
Escolher é um verbo forte nessa conversa. Quando olho para trás, vejo que, talvez, a Suécia é que tenha me escolhido.
Eu e meu marido sempre tivemos a vontade de morar fora do país. Eu, desde muito pequena, sentia que Curitiba, no Paraná, não era bem o meu lugar. Meu marido, por mais feliz que fosse lá, queria conhecer o mundo.
Uma série de fatores aconteceu; as estrelas e os planetas se alinharam, e depois de três meses, depois que decidimos que queríamos mesmo morar em outro país, tudo aconteceu. Foi rápido, foi repentino, foi um piscar de olhos.
Cresci acreditando que, quando as coisas “são para ser”, elas acontecem.
Mudamos para a Suécia sem expectativas, e talvez essa tenha sido a melhor coisa que fizemos: esperar nada. Sim, eu já tinha ouvido falar da Suécia e, por acaso, até acompanhava uma youtuber que mora ao norte do país, envolta de uma floresta. Eu sabia que a Suécia também tinha sua metrópole, mas confesso que, por muito tempo, a minha ideia predominante era de que a Suécia era um país isolado, rodeado por pinheiros e lagos.
Não passei tão longe. Apesar dos prédios e das clássicas casas vermelhas, a Suécia é, sim, um lugar repleto de natureza, mesmo na cidade. Você não precisa ir muito longe para encontrar as florestas e dar um mergulho nos seus lagos gelados.
A verdade é que me apaixonei por esse país, e rápido.
É uma coisa sutil, às vezes difícil de explicar. Vim acompanhando meu marido, que já veio empregado, e “deixei tudo” no Brasil.
Digo isso entre aspas porque, na verdade mesmo, acho que eu não tinha muita coisa. Nunca tive muito apego, nem às pessoas nem às coisas. Meu maior receio era deixar minha banda para trás. Mas depois de uma série de eventos caóticos, mudar o resto do rumo da minha vida foi um tanto inevitável e natural.
É complicado falar sobre desapego.
Muitas pessoas podem entender errado ou não entender nada, afinal. Para algumas, desapego é sinônimo de indiferença. Para mim, é completamente o contrário.
Conforme fui crescendo, comecei a entender que amar é desapegar. Permitir que o outro seja quem se é, vá para onde desejar e viva como quiser viver.
Quanto mais amo alguém, mais gostaria de vê-lo feliz e isso implica soltar.
O contrário também é verdadeiro: se sou amada, tenho liberdade para ser, ir, vir, crescer e me realizar.
Não tendo muita coisa, além do meu amor pela música e pela minha família, cheguei nesse país sem peso nos ombros.
Mas, como vocês sabem, nem tudo são flores. Vamos completar três anos aqui e, com a etiqueta de “imigrante”, vêm as dificuldades.
Tentei empregos, tentei um mestrado, tentei cursos. Conheci pessoas, deixei pessoas irem, fiz amigos, vi-os partirem. Mudei de casas, encaxotei tudo e desempacotei tudo de novo.
É um grande vai-e-vem. Um grande desapegar.
Algumas pessoas me perguntaram se estou feliz aqui por estar “acompanhando” meu marido, que veio com tudo organizadinho e pronto para viver.
E eu costumo dizer que talvez esteja mais feliz aqui do que ele, que a Suécia me acolheu e, mais: de fato, me escolheu.
Eu tive e tenho meus desafios. Não é fácil começar a empreender de novo em outro país e outra cultura, mas nessa loucura, encontrei um mar de possibilidades que enchem meu coração.
Depois de três meses morando na Suécia, comecei a me apresentar pelos bares e restaurantes de Gotemburgo. Depois comecei a fazer meus próprios shows em cafés e, hoje, sou contratada por suecos para fazer shows privados.
Não me pergunte como isso aconteceu! Eu sinto que fechei os olhos, prendi a respiração e pulei!
Na Suécia encontrei uma força que parecia me faltar no Brasil
Dizem algumas pesquisas que a Suécia é um dos países mais “autistic friendly” (“amigável para autistas”, em tradução literal e “legal pra gente”, em tradução livre, hehehe) do mundo.
Quando me mudei para cá, não sabia disso. Mas percebi essa facilidade, essa fluidez, no dia a dia, rapidinho.
Suecos são silenciosos, calmos, gentis. Respeitam o espaço do outro (até numa fila!) e são reservados.
Não é frieza, é espaço pessoal.
Nunca fui maltratada por um sueco. E, sim, vamos considerar aqui que sou branca e loira, “parecida” fisicamente com eles, e isso me ajuda a me misturar. Além disso, eles gostam dos brasileiros. Ficam fascinados quando falamos que somos do Brasil.
Com isso em mente, não me esqueço dos meus privilégios. Não sofri assédio por ser latina nem preconceito por não ser daqui. Mas sei que essa realidade pode ser diferente para algumas nacionalidades ou pessoas que tenham traços físicos diferentes.
Mas o que eu sinto mesmo é que, por causa da cultura sueca, eu consigo respirar. Eu consigo ser mais… Eu!
Existe um fenômeno estudado no autismo que, informalmente, é chamado de “mudança de CEP”. Em resumo: muitas pessoas autistas acabam se sentindo mais confortáveis fora do seu “hábitat natural”. Parece contraintuitivo, mas pensa comigo: o que é um oceano para um peixe que sempre se sentiu fora d’água num aquário?
Já somos diferentes mesmo. Em outra língua e em outra cultura, então, achamos uma brecha para só ser.
Eu poderia listar as mil razões pelas quais eu amo a Suécia. Mas talvez não seja apenas lógico.
Costumo dizer que cada pessoa tem seu lugar no mundo.
Políticas conservadoras à parte, sinto que nossa alma pertence a certos lugares, para além da nossa compreensão.
Por alguma razão, ou algumas razões, sou mais feliz aqui.
Talvez isso dure para o resto da minha vida. Talvez eu cresça ainda mais e dê um passo ainda maior depois; talvez não.
A verdade mesmo é que estou feliz demais de voltar para casa. De sentir o vento frio no rosto, o resto de neve nas calçadas, o sotaque gotemburguense e o silêncio que paira do lado de fora da minha janela.
Brasil, obrigada por me dar a vida. Suécia, obrigada por cuidar dela.
Com amor,
Surya.



Amei saber mais da sua relação com seu país-lar! Sempre penso em como me sentiria ao mudar de país e uma coisa que me chamou a atenção no seu texto foi a parte em que fala sobre estar em paz com a sua cultura e queria entender mais o que seria isso pra você! Como você se viu em paz com a sua brasilidade a ponto de a saudade/relação com seu país de origem não se tornar algo grande demais a ponto de te impedir de se abrir para o novo lugar?